Um ano com o vírus KonMari

O post de hoje não foi escrito por mim, mas sim pela Helena: uma querida amiga - que eu considero de verdade como uma irmã. Há alguns meses ela comentou que escreveu um texto sobre sua experiência pessoal com o método KonMari e procurava um local para publicá-lo. Claro que eu ofereci este espaço! Agora, sem mais delongas, o post 


Aconchegue-se bem e pegue uma xícara de café, pois estou prestes a abrir meu coração.

Antes de tudo, vamos voltar ao segundo dia de 2019. Eu estava largada no sofá, procurando algo para assistir na Netflix enquanto meu namorado jogava videogame no escritório. Sofria com a eterna indecisão de ter que encontrar algo novo para assistir sem muito sucesso. Foi quando me rendi a um dos anúncios de série nova. Lendo a sinopse, vi que era sobre casas. Ponto positivo. Também era sobre organização. Uau, só felicidade até aqui. E o ponto máximo: era sobre desapego. Ok, vamos tentar, porque não?

A série em questão era Ordem na casa com Marie Kondo (Tidying Up With Marie Kondo, no original). Trata-se de um reality show no qual Marie Kondo, uma profissional em organização que desenvolveu seu próprio método, visita a casa de uma família e realiza a orientação sobre como arrumar a casa. Se você for um pouquinho viciado, assim como eu, em programas de decoração, organização e arquitetura, provavelmente sabe do que eu estou falando. Eu fui consumida por essa série!

Assisti aos oito episódios em menos de 24 horas e logo os primeiros sintomas começaram a aparecer. Fiz minha primeira pilha de roupas ao esvaziar meu guarda roupa e colocar todas as peças em cima cama, como manda o protocolo. Eu já tinha uma boa noção da quantidade de roupas que eu tinha, já que mudei de casa 4 vezes entre 2016 e 2017. A altura da pilha não me assustou, ao contrário dos participantes da série. Na verdade, o que me assustava era ver que a Wendy (episódio 2 - Empty Nesters), uma senhora da Califórnia/EUA, conseguia ter 3 cômodos repletos de roupas e ainda conseguir espalhá-las por outros móveis da casa. Além de tudo, existiam muitas roupas novas ainda com a etiqueta! Isso ia muito além da minha imaginação.

Pouco tempo depois, um novo sintoma surgiu. Não consegui deixar de incluir meu namorado nessa. Expliquei o método, mostrei alguns episódios e fiz com que ele montasse a própria pilha de roupas, ligeiramente menor que a minha. Afinal, como manter o guarda-roupas em ordem se o lado dele continuasse uma bagunça? Ele não escapou, mas não parou por aí, até porque existem mais 4 etapas para concluir o método. Mesmo assim, não bastava só incluir meu namorado, eu precisava espalhar para todos que eu conhecia. Meus amigos, minha família e minhas colegas de trabalho acabaram sendo engolidos pela enxurrada de fotos, mensagens e divulgação gratuita que eu fiz do KonMari.
   
 Não quero me estender aqui sobre como completar o KonMari, mas se você não faz ideia do que esperar, falarei brevemente. São 5 etapas no total: roupas, livros, papelada, itens variados (chamado de Komono) e apego emocional. O ideal é que você junte todos os artigos da mesma categoria e só então comece a selecioná-los. Você não deve fazer a arrumação separada por cômodos (sala, cozinha, escritório, banheiro, etc.). Pegue todas as roupas da casa, sujas e limpas, junte-as e selecione. Pegue todos os seus livros, junte-os e selecione. Pegue todas as maquiagens, junte-as e selecione. Pegue todas os brinquedos, junte-os e selecione. Por último, quando estiver pronto emocionalmente e depois de ter reunido experiência, você poderá partir para itens sentimentais (fotos, cartas, ingressos ou até mesmo uma camiseta que te lembre algo).

Eu estava começando a disseminar o vírus antes mesmo de terminar de aplicar o método na minha casa. Ajudei amigas no processo de organização e limpeza. Tentei ao máximo trazer pessoas para esse movimento junto comigo. Assim que recebi um bônus na loja da Google Play comprei o livro A mágica da Arrumação, escrito por Marie Kondo, e li rapidamente. Trata-se de um livro ilustrado que reúne os princípios básicos do primeiro livro escrito pela autora, Isso me traz alegria. Eu estava obcecada. Passava 80% do tempo falando em KonMari e nos outros 20% torcia para que alguém falasse sobre o método para eu poder falar mais.

Em menos de 10 dias eu já tinha me desapegado de 25% dos meus livros, metade das minhas HQs e muitos dos meus mangás. Em um mês eu já tinha terminado as 5 etapas e parti para aplicar o método nos meus arquivos de computador, porque eu não tinha mais o que fazer. Eu teria conseguido concluir a missão com sucesso, não fosse o fato de que meu computador, um senhor notebook de 10 anos com 256GB de capacidade de armazenamento, ficou com a metade da tela sem funcionar. Só isso. A metade horizontal de baixo estava toda preta. Mesmo assim, eu não poderia simplesmente de desapegar dele.

Foi aí que eu comecei a perceber algumas coisas que estavam debaixo do meu nariz esse tempo todo. Esse método não serve para brasileiros comuns. E o que eu quero dizer com comuns? Simples, se você estiver na faixa de posse de bens da classe média para baixo e não vive um estilo de vida guiado pelo minimalismo ou algo assim, quer dizer que você tem vários itens na sua casa que estão lá por necessidade em vez de alegria.

Voltando a um exemplo da minha vida. Após várias mudanças de casa, além do fato de eu ter saído da casa dos meus pais há poucos anos, significa que eu ganhei muitos potes, pratos, panos de prato, lençóis e tudo mais que uma casa pode precisar, incluindo geladeira e máquina de lavar roupa. Eu não tive condições financeiras de mobiliar e decorar minha casa conforme a minha vontade e precisei da ajuda de amigos e familiares para montar o meu lar aos poucos. Sendo assim, eu fiquei com muitas coisas que não me traziam uma felicidade imediata e estavam na casa só pela necessidade.
   
Sempre foi assim na minha família então não tinha conhecido outra realidade. Quando me deparei com o KonMari e percebi que teria que escolher entre meu único vestido adequado para o ambiente de trabalho ou passar calor no verão, fiquei chocada. Aquele vestido definitivamente não me trazia alegria. Foi a primeira roupa que comprei quando consegui um estágio e precisei ir em um evento da firma. Porém, eu não achei nada que eu realmente gostasse na loja e acabei levando-o porque era simples e preto. No momento, se adequava às minhas necessidades, mas não era algo que eu quisesse usar sempre.

Talvez, para você possa parecer claro. “Se você não gosta de algo, pra que mantê-lo?”. Pra mim, não foi tanto. Eu não tinha outra roupa formal além daquela. Também não tinha dinheiro para comprar uma peça para ficar no lugar. Então, ela teria que ficar no meu guarda roupa por mais um tempo ou logo eu não teria mais roupas para vestir se continuasse a fazer isso. E assim eu comecei a fazer concessões, algo que o KonMari repete diversas vezes para não fazer.
A questão é que, em países como os Estados Unidos onde o reality show foi gravado, e como o Japão, onde Marie Kondo viveu e desenvolveu seu trabalho, é mais fácil se livrar do que não traz felicidade, porque comprá-los é mais barato. Claro, deixando a questão sentimental de lado. Talvez essa indecisão pelo vestido que precisei manter em meu guarda roupa não tivesse tanta intensidade como teve aqui. Talvez, eu tivesse conseguido tocar o método sem tantos questionamentos como esse.

Logo, vi que não me encaixava nos padrões pregados pelo método. Ele não se encaixava na minha realidade econômica, nem nos relatos de outras pessoas que executaram os cinco passos. Entendo que haja um apelo espiritual muito mais do que o material, mas estava longe do possível para mim. Entretanto, não quer dizer que ele foi totalmente inútil na minha vida.

Agora sei que as roupas que eu tinha desde a minha adolescência não combinam mais comigo e, por mais que eu só tenha uma calça jeans no momento, eu sei quais modelos e qual estilo posso comprar da próxima vez que eu precisar. Vai facilitar minha vida na hora de escolher uma loja e posso fazer com mais rapidez e felicidade, pois sei que ela vai se adequar ao meu gosto. Não vou fazer compras por impulso pensando que preciso logo de uma calça que me sirva e fim de papo.
   
Com exceção de materiais de papelaria, repensei meus hábitos de consumo e passei a comprar itens que eu realmente goste e que me trazem felicidade ao usar. Não quero mais ter aquela única peça no guarda roupa que seja especial e que eu uso com carinho. Quero que todas as minhas roupas sejam especiais e que o resto da minha casa também emane essa sensação.

Isso me lembra uma vez em que um dos meus amigos fez um chá de casa nova, pois ele iria sair da casa da mãe para morar com a namorada. No convite eles disseram que não queriam receber nada além de vale presentes em lojas de móveis, decoração e itens para a casa. Logo de cara eu pensei “caramba, que ingratos! Como assim eu não posso comprar algo que eu sei que eles precisam?”. Depois, a ficha caiu, claro. Era exatamente isso que eu queria pra mim. A oportunidade de estar repleta de coisas que eu mesma escolhi e que tivessem algum significado pra mim.

E com essa máxima eu passei a planejar a reforma do meu escritório. Veja bem, eu gostava do jeito que ele era, mas não tinha espaço para eu e meu namorado trabalharmos ou jogarmos ao mesmo tempo. Ele não tinha espaço para trabalhar adequadamente com a mesa digitalizadora, porque o espaço de apoio era pequeno. Analisando todos os pontos negativos e as nossas necessidades, planejamos um escritório ideal, com móveis mais compatíveis ao nosso gosto atual. Essas decisões nos pouparam tempo e dinheiro. Agora temos planos para deixar a nossa casinha do jeito que a gente gosta. E essa, meus caros, é uma sensação maravilhosa, que deixa um quentinho no peito.
E assim acaba a minha reflexão sobre um método que mudou minha vida pra noite pro dia e me causou boas e más experiências. Não acho que eu tenha completado de fato as 5 etapas. Para os itens menores eu acredito que sim. Para eletrodomésticos e móveis, ainda estou no processo. Nesse ritmo, eu precisaria mudar de apartamento pra ontem e não é algo cogitável no momento.
Espero que você veja o KonMari com mais amor em seu coração e com menos rigor. Aproveite para questionar os seus hábitos e condutas muito mais do que se perguntar se deve se livrar de algo. E uma última dica caso tenha dúvida sobre desapegar-se ou não: mantenha em uma área de análise e continue pensando sobre o objeto em questão. Eu não levei isso à sério e me desfiz de muitos materiais de papelaria que eu precisaria hoje e eu só consigo ficar com raiva de mim mesma.
Me chamo Helena e também sou blogueira das antigas. Diferente da Lu, o meu blog era sobre coisas nonsense e pertencia à uma área obscura da internet: o vale dos otakus. Tenho vídeos perdidos pelo YouTube da época em que percebi esse novo estilo viria a destruir os meios convencionais até então. Agora, não consigo tirar os vídeos do ar porque perdi o acesso da conta. Vida que segue.
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